segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ladra

Foi assim mesmo sem eu perceber. Agora que já aconteceu eu me pego pensando no motivo. Talvez seja o olhar, o falar doce, a história gostosa de admirar. Talvez seja o seu eu de dentro, que combina com o você de fora tão bem. Conjecturas. Dessas coisas não se sabe a razão.
A verdade verdadeira, a escrita pelo claro, é que você agora está em tudo:
Invadiu os poemas que eu já sabia de cor,
As músicas que eu ouço no escuro,
Os meus 10 livros prediletos,
As frases que eu leio nos muros,
Os 20 segundos que antecedem meu sono.
Roubou de mim o sossego da mente, os tópicos do meu raciocínio maquinal, o alívio do gole quente de  café.
Roubou esses minutos dos quais me desfiz para escrever sobre você.
Na verdade, acho que isso aqui não se trata de você. Trata-se de mim tentando entender porque me apaixonei por uma ladra.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Encontro Marcado

Você abre os olhos, encosta no painel da cama. O celular diz que são 3:45. Acende a luminária. Puxa um livro já marcado. Corre os olhos em retrocesso para encontrar o parágrafo correto.

"Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais"

Faz uma observação mental: "Essa frase é paradoxal. Somos os mais animalizados dos animais, então objetivar a humanização é mirar a selvageria."
Está tarde de mais para ler Saramago. Você fecha o livro. Vira na cama.
Você está com medo, porque sabe que as 04:00AM tem um encontro marcado. Você ensaia o que vai dizer. O que você vai responder se as perguntas forem as que você imagina que serão.
"Não é culpa minha"
"Eu não queria que fosse assim"
"Eu não tenho controle"
"Você é tão responsável quanto eu"
Apreensão. Ele é o tipo de cara que tem resposta pra tudo. Que lidera os debates, que convence os amigos e que sabe argumentar. Você está perdido. Se pudesse, marcaria outro dia. Adiaria esse encontro. Daria uma desculpa qualquer, como quando dizemos para a mulher do cartão que "não tem ninguém com esse nome aqui". Se ele não conhecesse sua voz, não reconhecesse sua fisionomia. Se ele pelo menos não soubesse da sua agenda...
Já são 3:55 e você ainda não sabe o que vai dizer. E não é por falta de tempo, falta de aviso. Vocês sempre tem essa mesma conversa. Já sabia que iriam se encontrar novamente em breve e até já imaginava quais seriam as perguntas. Mas é como no colégio, a gente nunca estuda antes só pra sentir aquela nesga de adrenalina malandra por enfrentar o desconhecido, por apostar no improviso.
04:00AM
Os pensamentos embaralham e dispersam até um negro agoniante tomar conta do palco mental. Do fundo, ele vem caminhando com a conhecida expressão de superioridade adolescente, aquela que se vangloria. E quando ele está bem perto você lembra que o encontro era com você mesmo. Ele começa a falar, quase que soletrando, como quem quer ser didático:

"Porque você está fazendo essa bagunça com a sua vida?"

E você responde na mais divertida das eurekas: 

"Oras, se não formos capazes de viver inteiramente como animais, ao menos façamos de tudo para não viver interamente como pessoas."

segunda-feira, 25 de março de 2013

Boa sorte, pra mim e pra você

Já pensei algumas vezes em escrever coisas maiores e mais relevantes, mas agora percebo que essa minha empreitada está já, antes de começar, fadada ao fracasso, já que meus textos surgem assim: de estímulos forjados por instabilidade psicológica, no meio da madrugada, que é um lugar especial onde fico sozinho com meus pensamentos egoístas.

Os dias estão vindo numa velocidade assustadora. Sinto-me num daqueles filmes da sessão da tarde nos quais o veículo perde o freio. Na verdade, a cada dia que passa inclino-me mais a acreditar que os dias são uma maneira carinhosa de mascarar o desastre que é nossa relação com o tempo.

Desde que visitei esse blog pela última vez as coisas continuam bem parecidas: Ainda sou aquele cara de quase 20 anos perdido numa cidade bem maior do que seus sonhos que busca desesperadamente ocupações para evitar sua mente masoquista de pensar. Mas confesso que fiz progressos. Apesar de nenhuma grande mudança, sinto-me feliz e estou cobrando bem menos de mim. E por mais incrível que  possa parecer, as coisas estão dando certo - umas mais que outras.

Em resumo: Muito tempo na estrada, um monte de saudade de pessoas que eu já nem conheço tão bem, meias relações esperando minha atitude e bastante junk food, tudo isso regado ao bom e velho som da MPB empoeirada, lotada de charmoso ruído estático. Um mundinho meu, onde eu faço todo sentido e posso me dar ao luxo de reclamar a grandeza dos meus problemas sem me preocupar com outros sofredores. Não sou muito diferente deles, já que todos nós, no fim das contas, estamos sozinhos.

Boa sorte, pra mim e pra você.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Eu não quero ficar sozinho

Eu não quero ficar sozinho.

Eu já não tenho tantos amigos confidentes,
Eu já não moro com meus pais,
Eu já não posso mais chorar em público,
E nem posso colocar a culpa em qualquer acontecimento.

Eu já começo a me preocupar com meu futuro.
Eu já começo a ter medo das minhas decisões.
E já começo a me arrepender de coisas que não fiz.

Eu já terminei o colégio.
Eu já ingressei na faculdade.
Eu já desisti da faculdade.
Eu já consegui um carro,
E também um bom emprego.
E isso não melhorou nada.

E só me resta uma sensação estranha: Sinto que alguém me largou no meio do mundo e não me explicou onde eu estava.
E agora eu estou sozinho.
E eu não quero ficar sozinho.