Foi assim mesmo sem eu perceber. Agora que já aconteceu eu me pego pensando no motivo. Talvez seja o olhar, o falar doce, a história gostosa de admirar. Talvez seja o seu eu de dentro, que combina com o você de fora tão bem. Conjecturas. Dessas coisas não se sabe a razão.
A verdade verdadeira, a escrita pelo claro, é que você agora está em tudo:
Invadiu os poemas que eu já sabia de cor,
As músicas que eu ouço no escuro,
Os meus 10 livros prediletos,
As frases que eu leio nos muros,
Os 20 segundos que antecedem meu sono.
Roubou de mim o sossego da mente, os tópicos do meu raciocínio maquinal, o alívio do gole quente de café.
Roubou esses minutos dos quais me desfiz para escrever sobre você.
Na verdade, acho que isso aqui não se trata de você. Trata-se de mim tentando entender porque me apaixonei por uma ladra.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Encontro Marcado
Você abre os olhos, encosta no painel da cama. O celular diz que são 3:45. Acende a luminária. Puxa um livro já marcado. Corre os olhos em retrocesso para encontrar o parágrafo correto.
"Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais"
Faz uma observação mental: "Essa frase é paradoxal. Somos os mais animalizados dos animais, então objetivar a humanização é mirar a selvageria."
Está tarde de mais para ler Saramago. Você fecha o livro. Vira na cama.
Você está com medo, porque sabe que as 04:00AM tem um encontro marcado. Você ensaia o que vai dizer. O que você vai responder se as perguntas forem as que você imagina que serão.
"Não é culpa minha"
"Eu não queria que fosse assim"
"Eu não tenho controle"
"Eu não queria que fosse assim"
"Eu não tenho controle"
"Você é tão responsável quanto eu"
Apreensão. Ele é o tipo de cara que tem resposta pra tudo. Que lidera os debates, que convence os amigos e que sabe argumentar. Você está perdido. Se pudesse, marcaria outro dia. Adiaria esse encontro. Daria uma desculpa qualquer, como quando dizemos para a mulher do cartão que "não tem ninguém com esse nome aqui". Se ele não conhecesse sua voz, não reconhecesse sua fisionomia. Se ele pelo menos não soubesse da sua agenda...
Já são 3:55 e você ainda não sabe o que vai dizer. E não é por falta de tempo, falta de aviso. Vocês sempre tem essa mesma conversa. Já sabia que iriam se encontrar novamente em breve e até já imaginava quais seriam as perguntas. Mas é como no colégio, a gente nunca estuda antes só pra sentir aquela nesga de adrenalina malandra por enfrentar o desconhecido, por apostar no improviso.
04:00AM
Os pensamentos embaralham e dispersam até um negro agoniante tomar conta do palco mental. Do fundo, ele vem caminhando com a conhecida expressão de superioridade adolescente, aquela que se vangloria. E quando ele está bem perto você lembra que o encontro era com você mesmo. Ele começa a falar, quase que soletrando, como quem quer ser didático:
"Porque você está fazendo essa bagunça com a sua vida?"
E você responde na mais divertida das eurekas:
"Oras, se não formos capazes de viver inteiramente como animais, ao menos façamos de tudo para não viver interamente como pessoas."
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